Sandbox regulatório: Anvisa busca conciliar inovação tecnológica e gestão de riscos no setor de saúde

A futura resolução da Anvisa para o Sandbox Regulatório criará parâmetros para testar inovações em saúde com segurança jurídica e controle de riscos.
Publicado em: 6 de outubro de 2026
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) avança na elaboração de uma proposta de resolução voltada a regulamentar o Ambiente Regulatório Experimental, conhecido como Sandbox Regulatório, no setor de saúde brasileiro.

Fundamentado no Marco Legal das Startups (Lei Complementar n.º 182/2021)¹, o mecanismo permite que empresas e centros de pesquisa testem modelos de negócios, tecnologias e produtos inovadores sob condições especiais e supervisão direta da autoridade sanitária.

A iniciativa marca uma evolução na atuação da agência, que busca compatibilizar o estímulo ao desenvolvimento científico e à inteligência artificial com a preservação irrestrita da segurança sanitária.


O propósito da nova resolução geral da Anvisa

O tema tem sido debatido internamente pela agência e deve ser submetido à deliberação da Diretoria Colegiada nos próximos meses².

Segundo o diretor-presidente da autarquia, Leandro Safatle, a norma geral visa fixar critérios claros para a admissão de projetos, parâmetros de monitoramento e regras sobre a responsabilidade dos participantes.

O objetivo central é aplicar a flexibilização regulatória de forma proporcional aos riscos envolvidos, garantindo que o interesse público e a proteção da coletividade permaneçam no centro das decisões.


Aplicações práticas: biotecnologia, inteligência artificial e precedentes

No campo da saúde humana, o modelo de sandbox abre oportunidades expressivas para diferentes segmentos industriais e tecnológicos:

  • Dispositivos médicos e inteligência artificial: validação de softwares de diagnóstico (SaMD) e ferramentas preditivas aplicadas à prática clínica.
  • Novos ativos e terapias avançadas: realização de testes controlados de matérias-primas e formulações terapêuticas antes da fase de registro comercial definitivo.
  • Precedente da Cannabis medicinal: a RDC n.º 1.014/2026³ já instituiu um modelo experimental de até cinco anos para cultivo e processamento de insumos, servindo como laboratório regulatório para a futura norma geral.


Como observou Daniela Marreco, diretora da Anvisa, ao viabilizar a produção regulada de insumos e produtos destinados a pacientes específicos, em caráter não industrial e em pequena escala, o modelo contribui para a melhoria da qualidade sanitária dos produtos efetivamente utilizados pela população, além de permitir a continuidade terapêutica⁴
. A experimentação supervisionada gera, assim, evidências técnicas sólidas para embasar futuras decisões regulatórias de forma segura e transparente.

Desafios de governança e monitoramento contínuo

Diferentemente de outros setores econômicos, como o financeiro ou de telecomunicações, os projetos na área da saúde envolvem riscos diretos à integridade física e à vida dos pacientes.

Por essa razão, a implementação bem-sucedida do Sandbox Regulatório na Anvisa demandará:

  • Critérios rigorosos de elegibilidade e delimitação precisa das hipóteses de dispensa temporária de exigências ordinárias.
  • Mecanismos ágeis de reporte de eventos adversos e cancelamento preventivo de autorizações experimentais em caso de risco imprevisto.
  • Definição clara de governança contratual e alocação de responsabilidades entre parceiros tecnológicos, investidores e fabricantes.

Enquanto a resolução definitiva é aguardada, os agentes regulados devem acompanhar de perto os debates para identificar janelas de oportunidade em pesquisa e desenvolvimento.


Entendendo o Sandbox Regulatório na Saúde

O que caracteriza o Sandbox Regulatório no setor sanitário?

É uma autorização temporária e sob condições controladas emitida pela Anvisa para que empresas desenvolvam e testem tecnologias, fármacos ou modelos inovadores com flexibilização de certas exigências normativas.

Não. O ambiente experimental tem natureza transitória e de geração de dados. O registro comercial ordinário dependerá do cumprimento dos requisitos de eficácia e segurança exigidos pela legislação sanitária.

Destacam-se o segmento de dispositivos médicos digitais com inteligência artificial, produtos biotecnológicos inovadores e novas vias de formulação farmacêutica.

Life Sciences e Healthcare

A área de Life Sciences e Healthcare do Fialdini Einsfeld Advogados (FEADV) assessora empresas farmacêuticas, healthtechs e centros de pesquisa na formatação de projetos inovadores e no diálogo com as autoridades sanitárias. Nossa equipe acompanha a evolução dos marcos regulatórios experimentais para estruturar parcerias, gerir riscos de conformidade e viabilizar novos modelos de negócios na saúde.

 

Referências

  1. BRASIL. Lei Complementar nº 182, de 1º de junho de 2021. Institui o marco legal das startups e do empreendedorismo inovador
  2. KROLL, Rebeca. Anvisa avança em norma geral para uso de sandbox regulatório. Futuro da Saúde, 4 fev. 2026
  3. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 1.014, de 2026. Dispõe sobre a criação de Sandbox Regulatório para atividades relacionadas à cannabis medicinal
  4. MACHADO, Rafael. Anvisa dá novos passos utilizando sandbox regulatório, enquanto tema estagna na ANS. Futuro da Saúde, 4 fev. 2026